O instante após o instante - aliança francesa Brasilia

Convite e um pouco do que vai rolar na Aliança Francesa em Brasilia





O instante após o instante

Por Maryella Sobrinho
“De todos os meios de expressão, a fotografia 
é o único que fixa para sempre o instante preciso 
e transitório.  Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que
estão continuamente desaparecendo e, uma vez 
desaparecidas, não há mecanismo no
mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. 
Não podemos revelar ou copiar uma memória.”

Henri Cartier Bresson

Bater.Tirar. Capturar. Mirar... Verbos que indicam alguma espécie de agressão contra o outro ou algo, também frequentemente associados ao ato de fotografar. Bater ou tirar uma foto. Capturar uma imagem. Mirar o alvo para ajustar o foco... Entretanto, quando associados à linguagem fotográfica, tais verbos indicam uma ação relacionada ao registro, à uma descrição precisa e à memória; qualidades que conferem à fotografia o patamar de testemunho irrefutável da realidade. Tal qualidade não é atribuída por acaso....
Quando o filósofo francês Roland Barthes teoriza a linguagem fotográfica, em A Câmara Clara, busca descobrir qual a sua essência e acaba por constatar sua inclassificabilidade. Essa condição resultaria de vários motivos, entre os quais chamamos a atenção para a relação da foto com o tempo e com o referente. Para Barthes, “O que a Fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela
repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente.” Ao mesmo tempo, a fotografia está sempre ligada ao seu referente: “estão colados um no outro.”
Embora o desenvolvimento da tecnologia tenha fornecido aos operadores (como nomeia Barthes), uma ampla gama de recursos que permitem múltiplos tratamentos da representação visual, a fotografia permanece sendo um registro do mundo, repleto de elementos a serem observados e de imagens produzidas e veiculadas. Essa era uma das queixas do filósofo: “Vejo fotos por toda parte, como todo mundo hoje em dia; elas vêm do mundo para mim, sem que eu peça; (...)” Tal infortúnio resulta noutro problema. Se não existe a foto sem um referente (coisa ou alguém), a pergunta de Barthes pode ser direcionada a qualquer operador: “porque escolher (fotografar) tal objeto, tal instante, em vez de tal outro?” Assim, é inevitável questionarmo-nos a respeito dos interesses do fotógrafo Fábio Salun.
Desde 2004, Fábio Salun se dedica a pesquisar a fotografia como linguagem, considerando seus aspectos técnicos e sua história. A cidade sempre lhe serviu de referencial para a captura de instantes e detalhes da arquitetura urbana, resultando em imagens geométricas e abstratas. Já na série Virtuais, desenvolvida no ano de 2015, captura o instante após o instante do caminhar das pessoas. Tal feito é conseguido pelo domínio da técnica fotográfica amplamente conhecido por Salun, que consiste na captura de movimento a partir de longo tempo de exposição.
Aqui, o instante ganha atenção por ser definidora de nossa vivência cotidiana e da própria realidade fotográfica. O instante, assim como a imagem fotografada, constitui-se como um momento muito breve, qualquer ocasião, hora, tempo. É a verdadeira realidade do tempo, “é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas. O tempo poderá sem dúvida do renascer, mas primeiro terá de morrer.” E sobre a morte, Barthes não a deixa escapar de sua reflexão. Toda fotografia “foi”, “existiu”. Ela é sempre representativa de algo ou alguém, fazendo-nos lembrar do que é perecível, que está morto ou prestes a morrer.

Referências
BACHELARD, Gaston. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. A intuição do instante. Campinas: Verus, 2010.
BARTHES, Roland. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. A Câmara Clara. Notas sobre a Fotografia. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1984.

Algumas das Obras que farão parte da Exposição









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